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segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Fraqueza



Mais uma carícia do vento diluiu o fumo do cigarro no ar.

O céu azul terminava com uma risca cinzenta no horizonte. Estava bastante calor. Formava-se uma superfície de ondas que surgiam da areia e erguiam-se no ar criando uma espécie de ilusão e deformando o que se via através delas. Parecia estar tudo a derreter.

Limpou pequenas gotas de suor na testa com a mão e suspirou. Voltou a absorver o fumo e expeliu-o logo de seguida. Levantou-se limpando a areia dos calções e largou o cigarro, esmagando-o com o seu chinelo velho e gasto. O sol brilhava nas águas, criava um espelho de platina ao longo do mar. A luz reflectida deste espelho descobria o rosto pintado de manchas e sulcado por rugas. A pele tornava-se ainda mais pálida. O seu rosto ganhava um aspecto fantasmagórico à medida que as ondas tremeluziam. Descobriram também dois olhos azuis lacrimosos, de aspecto cansado e contornados por mais rugas que terminavam com olheiras profundas. O pescoço suportava peles flácidas e moles que pendiam sobre a gola da camisa. Ajeitou o chapéu ocultando um cabelo grisalho bastante frágil. Deixou que as ondas delicadas amaciassem a sola dos chinelos e tocassem levemente nos dedos dos pés. Mais adiante várias crianças brincavam alegremente na água, indiferentes aos minutos e horas que vão passando e que obrigam ao apodrecimento do corpo, livres de obrigações e compromissos, imunes à dor, entregues à inocência e ingenuidade. Não sabem o que lhes espera no futuro, apenas lhes interessa o presente porque o passado vai ser esquecido. Afastou-se daquelas crianças e caminhou paralelamente às ondas. Abrigou-se num pequeno grupo de grandes rochas frescas, largadas na areia pela arriba. Tentou lembrar-se da infância mas apenas se recordou do sorriso terno do seu pai e beijos meigos da sua mãe. Carinhos que foi aprendendo a esquecer quando morreram, era ele ainda uma criança. Só voltou a receber mimos quando se enamorou pela primeira vez. Uma bela jovem de cabelos pretos e compridos que se tornou sua noiva pouco tempo depois. Viram a idade levar-lhes o resplendor da juventude, viram os seus filhos abandonarem o ninho e levantarem voo para bem longe para iniciarem as suas vidas, viram meio mundo, viram 64 anos de alegrias e tristezas partilhadas e com a idade de 83 ele viu a morte levar-lhe a sua companheira há dois dias. Dois dias de tortura e tristeza, de solidão. Sentia o peito triturado, alguém lhe roubou o coração e deixou-lhe uma enorme cratera que o martiriza. Levou a mão ao peito e não tocou em nenhum buraco. Mas a dor estava lá a atormentá-lo.

O mar começou a ganhar vida e as ondas macias tornaram-se arrebatadoras. Sugavam a areia onde tocavam e conquistavam mais centímetros a cada minuto que passava. Avançavam em direcção ao velho.

Deitou-se na areia que ia humedecendo, um enorme cansaço tomou conta do seu corpo. Encolheu-se como um bebé e sorriu. Fechou os olhos e deixou-se levar pelo mar que o puxava pouco a pouco. Depois, embalado pelas ondas, adormeceu.

sábado, 30 de agosto de 2008

European Son - The Velvet Underground





Sentiu-o como uma parede de tijolo contra a sua cara. A pele moldou os ossos da mão duros e fortes e o olho fechou-se automaticamente com força. O maxilar entortou-se e a cabeça foi virando, agora desprotegida pelo chapéu que caiu. A bochecha ficou apertada contra os dentes e à medida que a força largada pela mão se libertava, a carne mole e humedecida pela saliva era ferrada pelos dentes. Abriu-se esta carne deixando o sangue fluir para dentro da boca e a gengiva cedeu um dente, que foi cuspido. Olhou o adversário com fúria, preparou-se para investir rangendo os dentes. Formaram-se pequenas rugas em torno do nariz e debaixo dos olhos à medida que os dentes se mostravam. Ficou com a expressão de um lobo enraivecido, pronto a morder. Os músculos tornaram-se tensos, o touro dentro dele estava prestes a ser libertado, sentiu um calor súbito todos os membros do seu corpo descarregado pela adrenalina. Pegou na garrafa de vinho meio cheia à sua frente e rachou-a em mil cacos na cabeça do indivíduo. O líquido escorreu pelo cabelo oleoso e salpicou tudo à sua volta. O segundo indivíduo cambaleou com o choque e caiu em cima da mesa atrás partindo-a ao meio. Dois homens sentados na mesa partida levantaram-se de rompante e um deles pegou numa cadeira esbarrando-a em direcção ao primeiro. Este baixou-se a tempo de evitar a cadeira que se desfez em mil pedaços. O homem atrás do balcão guardou apressadamente todos os copos e garrafas e escondeu-se debaixo do balcão assustado. Tremiam-lhe as pernas e teve que gatinhar até a outra ponta do balcão para buscar a sua espingarda mas foi interceptado pelo corpo de outro indivíduo lançado no ar contra a parede, que tombou à sua frente no chão. Deixou-se ficar ali. Viu esse indivíduo levantar-se de novo e saltar como uma pantera para cima da sua presa. Ouvia estrondos de cadeiras a desfazerem-se em corpos, tombos no chão, socos, gemidos de dor, gritos, tilintar de esporas, pontapés, encontrões contra as paredes, gargalhadas e uivos. O Barulho e a Algazarra instalaram-se no seu bar. Um cego levou com um pé de uma cadeira no nariz. Um homem mais alto encontra uma nota deixada no chão e precipita-se a apanhá-la. O primeiro indivíduo corria para a porta mas tropeça no homem alto, que lhe dá um pontapé no estômago pensando que lhe iria roubar a nota e deixou-o tombar no chão agarrado ao estômago, mas o tombado segura a bota do homem alto ferindo-se numa espora que rodou com a queda do homem alto. Este ficou descalço mas não largou a nota, e, preparando-se para entrar no banzé, guarda-a nas ceroulas. Mergulha de novo no chão e investe murros e pontapés a quem lhe aparece à frente. Levanta-se o cego agonizado a farejar a saída mas leva com nova agressão, desta vez foi no pé, uma bruta pisadela com a parte do salto de uma bota. Gritou de dor e atira as mãos aos pés, obstruindo o meio do salão e provocando logo uma série de quedas. Começam então aos pontapés no pobre cego que responde à paulada com um pé de uma cadeira estilhaçada. Um cão foge para a rua com o rabo entre as pernas e é logo seguido de um corpo arremessado porta fora, que se levanta e inicia uma corrida frenética rua abaixo. O seu adversário segue-o também a correr e a saltar, seguido por outros tantos dispostos a continuar as investidas. O dono do bar continua sentado debaixo do balcão à espera que a algazarra acabe. Agora há menos barulho, talvez só estejam quatro ou cinco a golpearem-se. Estende o braço, segura na espingarda e levanta-se logo de seguida. Muito hirto lança um tiro ao ar. Os restantes olharam em direcção ao balcão com os olhos assustados e orelhas em pé, como hienas que avistam leões, largam as suas presas e correm dali para fora atropelando-se uns aos outros antes que sejam abatidos. Restou o homem atrás do balcão, dois corpos caídos a gemer em cada lado do salão, casacos rasgados, uma bota e vários chapéus pisados e rotos, cadeiras e mesas quebradas, paredes com rachas e o chão cheio de terra largada pelas botas e esporas, pingado de sangue, molhado por poças de vinho e muitos vidros a brilhar no chão como pequenas agulhas que reluziam com os raios do sol infiltrados pela porta escaqueirada assim como três dentes de ouro, fora os dentes de cálcio. O dono do bar continuava na mesma posição muito direito e o rosto ruborizava à medida que analisava os estragos. O cão espreitou por debaixo da porta e preparava-se para entrar mas foi surpreendido por um novo tiro em direcção ao tecto projectado pelo dono do bar e fugiu ganindo de medo. O homem atrás do balcão suspirou, sentiu uma areia cair-lhe em cima da cabeça careca. Olhou para cima e viu cada vez mais próximo um pedaço do tecto que desabou devido ao tiro. Sentiu o embate frio e duro em cima da sua cabeça. Fechou os olhos com muita força e desmaiou no chão.

domingo, 10 de agosto de 2008

Luz


Hoje estou longe da minha Lisboa e percorro a estrada até ao topo do nosso rectângulo mergulhado em água e apanhado por terra. Já vejo as placas com indicações e sinto-me cada vez mais próximo de ti. Finalmente descubro-te atrás do vidro.

Amo Lisboa, mas estou muito longe de lá e tu hoje estás comigo. Espreito pela janela à tua espera e avisto-te. Vens abrindo o caminho de luz até mim.

Saio do carro e sorrio por te ver, corres até mim e abraças-me e eu beijo-te, peço-te que fiques sempre comigo e sussurro-te ao ouvido palavras que sinto e que exiges.

Sais do carro e sorris e desfaço-me das fronteiras materiais e abraço-te. Tu beijas-me e dizes-me o que quero ouvir.

Tu não respondes, apenas entras no meu carro, é a tua resposta sem palavras. Entro também eu no carro e assumo o controlo e tu tornas-te submissa ao caminho que escolho e que acaba por também ser a tua escolha.

Entramos no teu carro e abrimos luz ao caminho que vem à nossa frente. Oiço a música de que gostamos, que preenche os espaços de silêncio quando as palavras não são necessárias. Percorremos a estrada recebida por florestas e descampados. Traças as curvas e segues em frente.

Olhas para a paisagem e eu contorno as curvas e sigo em frente, abandonamos Portugal e a minha Lisboa.

Finalmente saímos de Portugal, entramos no desconhecido desvendado pela estrada contínua e as suas informações. Aqui fala-se outra língua mas o sentimento é igual.

Sigo sempre em frente e apalpo as informações que a estrada me dá. Agora só vejo o horizonte ligado à estrada que nos liga a nós. Sou o que abre caminho e levo-te comigo, em segurança, como uma frágil flor numa cúpula. A estrada é uma recta que acaba num ponto, envolvida do amarelo do trigo e dos girassóis, pisada pelas nuvens a rasgar o turquesa do céu.

A paisagem altera-se ligeiramente e as longas curvas são convertidas em rectas. Os campos de trigo reluzem e os girassóis perseguem o seu amor sem nunca o alcançar, suspiram e desejam-no, quando a noite cai recolhem as suas faces até que o vejam de novo, aí iluminam-se os seus rostos que voltam a perseguir os raios de luz do seu amor até à eternidade. Isto é o verdadeiro amor platónico. Continuamos na nossa estrada, no teu carro com a nossa música.

Mudo a direcção e entro num caminho de terra.

Entras num caminho de terra, avanças mais um pouco e paras.

Paro o carro e mudo a música. A música preenche o nosso silêncio, sabe bem não dizer nada e dizer tudo ao mesmo tempo, este silêncio só fica bem contigo, assim como o branco que te realça a pele e os cabelos compridos de ouro, que se entornam desde a raiz às pontas num caminho contínuo e desenham os limites da tua face.

Mudas a música e olhas para mim e eu vejo tudo. Analiso o brilho dos teus olhos. Tens mais amarelo que azul. Percorro o teu nariz até aos lábios onde compões um sorriso alegrando o teu rosto e torna-se tudo perfeito, pronuncias palavras que me embalam, como uma droga que acalma os músculos, sinto-me bem e leve e esse líquido que flui pelas minhas veias atravessa todo o meu corpo tornando-o imaterial, já estou no céu a abraçar estrelas e atravessei a via láctea, e tu transportas-me de novo a terra com uma carícia.

Os teus olhos caminham em mim, tens azul e uma coroa de amarelo a rodear a íris. Sorrio por te ter comigo e desta vez não o sussurro, lanço-te palavras como notas músicais que tu ouves e que te deixam arrepiada, digo que te amo. Os teus olhos tornam-se vidro e eu acaricio o teu rosto, a tua pele macia.

Sais do carro e abres-me a porta e eu abraço-te, tu envolves-me com os teus braços fortes, asas que me aninham e subimos os dois até a outra galáxia enlaçados por música.

Saio do carro e abro-te a porta. Tu abraças-me e eu protejo-te com as minhas asas. Encosto o meu ouvido nos teus cabelos e mergulho no teu perfume. Sinto-me a flutuar. Levitamos e partimos. E agora estendo esta toalha de linho no chão e deitamo-nos.

E agora deitamo-nos com a face virada para o céu, tal como girassóis, na tolha que estendeste no chão.

Fecho os olhos. Vejo o amarelo do sol a infiltrar-se dentro das pálpebras e a tornar-se num laranja avermelhado. Oiço a música e sinto os teus dedos amaciarem-me o cabelo.

O céu aqui é mais alto e azul, no horizonte reina o turquesa e as nuvens são profundas, rasgadas e entrelaçam-se no céu, como os meus dedos no teu cabelo. A música continua presente tal como o teu perfume que disfarça a tua fragrância natural e eu amo as duas. Tu abres os olhos, reflectem o céu e brilham ainda mais e as tuas pestanas deixam dentes de sombra no azul do céu.

Abro os olhos e vejo o céu azul e beijas-me.

Beijo-te e esquecemo-nos do mundo, não temos corpo, somos duas luzes com mil girassóis que observam a nossa trajectória e a música é o ar.

Já não existo. Sou parte de ti e tu de mim, somos duas luzes que formam um sol e respiro música.

Agora abro os olhos e vejo branco escondido pela sombra e os lençóis destapam o meu sonho. Volto a fechar os olhos.

Quando volto a abrir os olhos vejo a luz que atravessa as persianas deixando marcas de garras amarelas na parede branca. Suspiro e fecho os olhos.