
Mais uma carícia do vento diluiu o fumo do cigarro no ar.
O céu azul terminava com uma risca cinzenta no horizonte. Estava bastante calor. Formava-se uma superfície de ondas que surgiam da areia e erguiam-se no ar criando uma espécie de ilusão e deformando o que se via através delas. Parecia estar tudo a derreter.
Limpou pequenas gotas de suor na testa com a mão e suspirou. Voltou a absorver o fumo e expeliu-o logo de seguida. Levantou-se limpando a areia dos calções e largou o cigarro, esmagando-o com o seu chinelo velho e gasto. O sol brilhava nas águas, criava um espelho de platina ao longo do mar. A luz reflectida deste espelho descobria o rosto pintado de manchas e sulcado por rugas. A pele tornava-se ainda mais pálida. O seu rosto ganhava um aspecto fantasmagórico à medida que as ondas tremeluziam. Descobriram também dois olhos azuis lacrimosos, de aspecto cansado e contornados por mais rugas que terminavam com olheiras profundas. O pescoço suportava peles flácidas e moles que pendiam sobre a gola da camisa. Ajeitou o chapéu ocultando um cabelo grisalho bastante frágil. Deixou que as ondas delicadas amaciassem a sola dos chinelos e tocassem levemente nos dedos dos pés. Mais adiante várias crianças brincavam alegremente na água, indiferentes aos minutos e horas que vão passando e que obrigam ao apodrecimento do corpo, livres de obrigações e compromissos, imunes à dor, entregues à inocência e ingenuidade. Não sabem o que lhes espera no futuro, apenas lhes interessa o presente porque o passado vai ser esquecido. Afastou-se daquelas crianças e caminhou paralelamente às ondas. Abrigou-se num pequeno grupo de grandes rochas frescas, largadas na areia pela arriba. Tentou lembrar-se da infância mas apenas se recordou do sorriso terno do seu pai e beijos meigos da sua mãe. Carinhos que foi aprendendo a esquecer quando morreram, era ele ainda uma criança. Só voltou a receber mimos quando se enamorou pela primeira vez. Uma bela jovem de cabelos pretos e compridos que se tornou sua noiva pouco tempo depois. Viram a idade levar-lhes o resplendor da juventude, viram os seus filhos abandonarem o ninho e levantarem voo para bem longe para iniciarem as suas vidas, viram meio mundo, viram 64 anos de alegrias e tristezas partilhadas e com a idade de 83 ele viu a morte levar-lhe a sua companheira há dois dias. Dois dias de tortura e tristeza, de solidão. Sentia o peito triturado, alguém lhe roubou o coração e deixou-lhe uma enorme cratera que o martiriza. Levou a mão ao peito e não tocou em nenhum buraco. Mas a dor estava lá a atormentá-lo.
O mar começou a ganhar vida e as ondas macias tornaram-se arrebatadoras. Sugavam a areia onde tocavam e conquistavam mais centímetros a cada minuto que passava. Avançavam em direcção ao velho.
Deitou-se na areia que ia humedecendo, um enorme cansaço tomou conta do seu corpo. Encolheu-se como um bebé e sorriu. Fechou os olhos e deixou-se levar pelo mar que o puxava pouco a pouco. Depois, embalado pelas ondas, adormeceu.

